{"id":6459,"date":"2018-10-23T12:00:14","date_gmt":"2018-10-23T14:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/bbconsultoria.net\/site\/?p=6459"},"modified":"2018-12-24T13:53:32","modified_gmt":"2018-12-24T15:53:32","slug":"as-prisoes-mentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bbconsultoria.net\/site\/as-prisoes-mentais\/","title":{"rendered":"As pris\u00f5es mentais"},"content":{"rendered":"<h3>Bolsonaro ter\u00e1 de moderar ret\u00f3rica. E oposi\u00e7\u00e3o precisa tomar consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o delicada em que o pa\u00eds entra<\/h3>\n<p>FERNANDO GABEIRA<\/p>\n<p>Lula est\u00e1 preso, meu caro. Repito a frase de Cid Gomes que ecoou na rede, suprimindo a palavra babaca. N\u00e3o por corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A palavra iguala a estupidez \u00e0 vagina. Apenas para lembrar, com humildade, como certos sentimentos est\u00e3o arraigados em nossa cultura e emergem de nosso subconsciente.<\/p>\n<p>A l\u00edder da direita francesa, Marine Le Pen, afirmou que algumas frases de Bolsonaro s\u00e3o inaceit\u00e1veis na Fran\u00e7a. Mas n\u00e3o o foram no Brasil.<\/p>\n<p>Humildade aqui significa reconhecer que mudan\u00e7as culturais levam tempo para se consumar. N\u00e3o s\u00e3o como uma ponte destru\u00edda pela chuva que se reergue rapidamente. Nem mesmo uma nova capital que p\u00f4de ser constru\u00edda no Planalto. \u00c0s vezes, atravessam gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Lula est\u00e1 preso. \u00c9 natural que o PT n\u00e3o aceite isso. Mas a forma de recusar foi chocar-se diretamente com a Justi\u00e7a, tentar dobr\u00e1-la com manifesta\u00e7\u00f5es, apoio externo e uma inesgot\u00e1vel guerra de recursos legais.<\/p>\n<p>Compreendo que isso era visto como uma forma de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Mas, na verdade, tamb\u00e9m acumulou rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Haddad foi lan\u00e7ado, cresceu rapidamente exibindo a m\u00e1scara de Lula. No segundo turno, a m\u00e1scara envelheceu como o c\u00e9lebre retrato de Dorian Gray.<\/p>\n<p>Mas o per\u00edodo que se abre agora ser\u00e1 de tanto trabalho, que talvez n\u00e3o tenhamos mais tempo para nos patrulharmos. S\u00e3o tempos complexos, que demandam mais humildade ainda.<\/p>\n<p>Num debate em S\u00e3o Paulo, depois do primeiro turno, confessei como o processo me surpreendeu. As pesquisas indicavam uma grande vontade de renova\u00e7\u00e3o. Quando os partidos se destinaram quase R$ 2 bilh\u00f5es para a campanha, conclu\u00ed que a renova\u00e7\u00e3o seria m\u00ednima.<\/p>\n<p>Apesar de ter feito algumas campanhas no territ\u00f3rio digital, minha reflex\u00e3o ainda se dava no quadro anal\u00f3gico. A renova\u00e7\u00e3o, cuja qualidade ainda \u00e9 discut\u00edvel, aconteceu. Com R$ 53 milh\u00f5es, Meirelles teve menos votos do que o Cabo Daciolo, um exemplo de como os velhos par\u00e2metros foram para o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias pesquisas que tanto critiquei no passado porque achava que favoreciam S\u00e9rgio Cabral, hoje as vejo com nostalgia. Existe informa\u00e7\u00e3o na pergunta cl\u00e1ssica em quem voc\u00ea vai votar.<\/p>\n<p>Mas, para detectar tend\u00eancias, \u00e9 preciso um oceano de dados e capacidade de an\u00e1lise. As pesquisas envelheceram, sem que muitos se dessem conta. Mas n\u00e3o apenas elas envelhecem, num mundo em que a intelig\u00eancia artificial avan\u00e7a implacavelmente.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse mundo que teremos de navegar. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel como no passado. Nos artigos em que trato de alguns de seus aspectos, come\u00e7o sempre com o paradoxo: os Estados Unidos, que lideraram uma ordem multilateral, decidiram abandon\u00e1-la. Ser\u00e1 preciso mais do que nunca acertar os passos aqui dentro. Isso significa gastar menos, fazer reformas.<\/p>\n<p>Quando estava na R\u00fassia, os primeiros protestos contra a reforma da Previd\u00eancia foram abafados pelo oba-oba da Copa do Mundo. Soube que agora a popularidade de Putin caiu 20 pontos precisamente por causa dela. Em outras palavras, a vida n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil para quem precisa reformar o Estado e fazer um ajuste fiscal.<\/p>\n<p>Nesse futuro t\u00e3o nebuloso que nos espera, a tese do quanto pior melhor \u00e9 atraente, no entanto, pode ser tamb\u00e9m um novo erro de avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando ficamos muito concentrados nos problemas internos, perdemos um pouco de vista nossa inser\u00e7\u00e3o internacional. A imagem do Brasil l\u00e1 fora mudou. O pr\u00f3prio Bolsonaro come\u00e7ar\u00e1 seu mandato como um dos presidentes mais rejeitados pela imprensa planet\u00e1ria. Ele ter\u00e1 de moderar sua ret\u00f3rica. E quem faz oposi\u00e7\u00e3o precisa tomar consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o delicada em que o pa\u00eds entra.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia da democracia n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada. Mas algumas escoria\u00e7\u00f5es podem empurr\u00e1-la para o vi\u00e9s autorit\u00e1rio que hoje cresce no mundo.<\/p>\n<p>As fake news, por exemplo, sempre existiram, mas hoje t\u00eam um peso maior, pelo alcance e velocidade. Utiliz\u00e1-las sem escr\u00fapulos e denunci\u00e1-las no advers\u00e1rio apenas confirma o pesadelo moderno da decad\u00eancia da verdade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil chamar \u00e0 raz\u00e3o a quem se considera o dono dela. Os intelectuais condenam as escolhas populares, mas, \u00e0s vezes, n\u00e3o percebem a sede de sinceridade que h\u00e1 por baixo delas. Pena.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> O GLOBO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolsonaro ter\u00e1 de moderar ret\u00f3rica. 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