{"id":6382,"date":"2018-11-06T16:40:10","date_gmt":"2018-11-06T18:40:10","guid":{"rendered":"http:\/\/bbconsultoria.net\/site\/?p=6382"},"modified":"2018-12-05T13:22:42","modified_gmt":"2018-12-05T15:22:42","slug":"agora-e-a-vez-da-bolsa-mas-sem-perder-a-prudencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bbconsultoria.net\/site\/agora-e-a-vez-da-bolsa-mas-sem-perder-a-prudencia\/","title":{"rendered":"Agora \u00e9 a vez da Bolsa, mas sem perder a prud\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h3>Comprar a bolsa agora requer n\u00e3o apenas acreditar no sucesso de Bolsonaro, mas em algo que ainda n\u00e3o tenha sido incorporado aos pre\u00e7os<\/h3>\n<p>Os primeiros alertas de que havia uma bolha no mercado imobili\u00e1rio americano come\u00e7aram a aparecer em 2004. Nouriel Roubini, hoje conhecido como o sujeito que antecipou a crise, tocou a buzina em 2006. Como se sabe, a bolha s\u00f3 estourou em 2008. Ou seja, quem seguiu o conselho dos primeiros urubus quebrou antes de ficar milion\u00e1rio. Resumindo, timing \u00e9 tudo no mercado. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que os investidores que surfaram bem a \u201cmarolinha\u201d conheciam os riscos.<\/p>\n<p>Registro esse nariz-de-cera para resgatar com tranquilidade um coment\u00e1rio que fiz neste espa\u00e7o no in\u00edcio de outubro do ano passado. Na \u00e9poca, o economista Robert Schiller, laureado com o Nobel, havia publicado no New York Times um artigo em que comentava com perplexidade a predomin\u00e2ncia de fatores psicol\u00f3gicos por tr\u00e1s da alta da bolsa. Aproveitando o ensejo escrevi:<\/p>\n<p>\u201cMesmo que [Schiller] esteja certo, se os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es encontram-se elevados em raz\u00e3o [de] irracionalidade (\u2026) diante de um cen\u00e1rio de liquidez abundante, ser\u00e1 apenas uma quest\u00e3o de tempo para as coisas voltarem ao normal. N\u00e3o se trata evidentemente de afirmar que a bolsa seja um mau neg\u00f3cio no curto prazo \u2013 na verdade, a hist\u00f3ria mostra que os desvios podem durar anos, at\u00e9 d\u00e9cadas. O ponto \u00e9 que quem quiser entrar na farra precisa saber o que est\u00e1 em jogo e que o futuro \u00e9 menos previs\u00edvel do que sugerem algumas narrativas.\u201d<\/p>\n<p>Muito bem. Desde que Schiller cravou sua an\u00e1lise a bolsa come\u00e7ou a pular como um cabrito. De outubro do ano passado at\u00e9 o in\u00edcio de 2018 o S&amp;P 500 subiu mais 12%. Praticamente devolveu tudo em fevereiro. Passou a oscilar violentamente sem tend\u00eancia at\u00e9 abril. O \u00e2nimo voltou e em setembro um novo recorde foi registrado. Em outubro houve perda de quase 7%. Noves fora, a valoriza\u00e7\u00e3o em 12 meses foi de cerca de 5%, mas menos de 2% em 2018.<\/p>\n<p>D\u00e1 para comprar um p\u00e9 de frango com o lucro e, para ser justo, o ganho n\u00e3o foi t\u00e3o pequeno quando comparado aos juros pagos pelos t\u00edtulos do governo. Ok, mas haja cora\u00e7\u00e3o. O aumento da volatilidade nos \u00faltimos meses sugere a exist\u00eancia de v\u00e1rios investidores com o dedo no gatilho, prontos para vender a\u00e7\u00f5es que parecem valorizadas demais antes que seja tarde. Quando muitos pensam assim, qualquer motivo trivial pode fazer o angu desandar.<\/p>\n<p>No longo prazo, o lucro das empresas americanas evolui em linha com o PIB. Os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es equivalem, portanto, ao crescimento econ\u00f4mico esperado trazido a valor presente pela taxa de juro dos t\u00edtulos p\u00fablicos mais um pr\u00eamio de risco. Trata-se aqui de no\u00e7\u00e3o t\u00e3o fundamental como a lei da gravidade.<\/p>\n<p>Uma das diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00edsica \u00e9 que o pr\u00eamio de risco n\u00e3o \u00e9 observ\u00e1vel diretamente, provavelmente muda com o tempo e n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo entre as classes de investidores. Como a bolsa costuma render bem mais do que os t\u00edtulos p\u00fablicos no longo prazo, implicitamente o pr\u00eamio \u00e9 elevado. De fato, uma pesquisa feita no final dos anos 90 com mais de 200 economistas produziu estimativa m\u00e9dia de 7,1% dentro de um intervalo entre 1% e 15%. Segundo as minhas contas usando os dados do p\u00f3s-guerra, a faixa \u00e9 entre 5% e 8%.<\/p>\n<p>\u00c9 praticamente consensual que o crescimento potencial da economia americana gira em torno de 2% ao ano, na melhor das hip\u00f3teses. O juro est\u00e1 baixo, mas vem subindo. Admitamos que n\u00e3o passe de 1,5% ao ano em termos reais, colocando j\u00e1 um chorinho em rela\u00e7\u00e3o ao que os mercados projetam. Se a avers\u00e3o ao risco for parecida \u00e0 m\u00e9dia que se observou na hist\u00f3ria, a queda da bolsa nas \u00faltimas semanas trouxe o \u00edndice para perto de seu valor \u201cjusto\u201d. Ou seja, se tudo der certo, ele n\u00e3o estaria nem caro, nem barato.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que boa parte da alta do S&amp;P 500 nos \u00faltimos anos \u00e9 explicada pela valoriza\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os de empresas de tecnologia cuja avalia\u00e7\u00e3o s\u00f3 faz sentido em um mundo em que os lucros cres\u00e7am exponencialmente. Por exemplo, o valor da Netflix, da ordem de US$ 150 bilh\u00f5es, equivale a mais de 100 vezes o lucro da empresa no \u00faltimo ano. N\u00e3o \u00e9 loucura supor que ele cres\u00e7a bastante no futuro, mas o risco \u00e9 alto em um mercado que depende de pouco capital onde o segredo \u00e9 controlar plataformas que vendem produtos intang\u00edveis. O pr\u00eamio de risco n\u00e3o deveria ser maior do que a m\u00e9dia em um mundo desses?<\/p>\n<p>Independentemente de qual seja a avers\u00e3o ao risco dos investidores, h\u00e1 que se considerar tamb\u00e9m os perigos do cen\u00e1rio econ\u00f4mico. O petr\u00f3leo est\u00e1 20% mais caro do que h\u00e1 um ano. Os est\u00edmulos de Trump t\u00eam data para acabar. Surgem os primeiros ind\u00edcios dos efeitos negativos da \u201cguerra comercial\u201d sobre o desempenho econ\u00f4mico da China e da Europa. Os detalhes do PIB no terceiro trimestre foram bem menos vistosos do que o n\u00famero \u201ccheio\u201d. A infla\u00e7\u00e3o descreve uma trajet\u00f3ria clara de eleva\u00e7\u00e3o. O FED segue firme na inten\u00e7\u00e3o de subir os juros. Macacos velhos das finan\u00e7as, como Warren Buffett, preferem devolver o dinheiro a seus acionistas porque n\u00e3o encontram neg\u00f3cios a pre\u00e7os razo\u00e1veis.<\/p>\n<p>Como o que \u00e9 ruim para os EUA \u00e9 ruim para o Brasil, \u00e9 bom ficar de olho, especialmente nesse quadro de relativo otimismo que se instalou com a esperan\u00e7a de que Bolsonaro promover\u00e1 com sucesso um choque liberal neste pa\u00eds que \u00e9 tudo menos liberal.<\/p>\n<p>Os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es do Ibovespa t\u00eam oscilado em torno de 20 vezes o patamar dos lucros. Essa faixa pode ser considerada normal.<\/p>\n<p>Definitivamente n\u00e3o h\u00e1 uma barganha. Comprar a bolsa agora requer n\u00e3o apenas acreditar no sucesso de Bolsonaro, mas em algo que ainda n\u00e3o tenha sido incorporado aos pre\u00e7os. H\u00e1 promessas que ser\u00e3o muito boas para a economia se se concretizarem. A Reforma da Previd\u00eancia, por exemplo, mas, por enquanto, s\u00e3o promessas. Ficar fora da bolsa n\u00e3o significa esperar um desastre, mas simplesmente achar que o progresso ser\u00e1 lento. As maiores frustra\u00e7\u00f5es n\u00e3o derivam de resultados necessariamente ruins, mas de expectativas infladas demais. Quem \u00e9 palmeirense sabe o que estou falando.<\/p>\n<p>Sejamos otimistas e vamos supor que as pol\u00edticas de Paulo Guedes fa\u00e7am o PIB e os lucros das empresas crescerem, em m\u00e9dia, 6% ao ano, mais do que o dobro do que se sup\u00f5e ser o potencial de crescimento atual. Fa\u00e7amos figas e tor\u00e7amos para que o juro de longo prazo caia para cerca de 4% em termos reais nesse cen\u00e1rio otimista. Com essas premissas, o valor atual do Ibovespa implica pr\u00eamio de cerca de 7% para carregar as a\u00e7\u00f5es, semelhante ao observado implicitamente nos EUA. No entanto, \u00e9 intuitivo supor e a literatura sobre o assunto no Brasil confirma que o valor \u00e9 mais alto por aqui. Ou seja, todo cuidado \u00e9 pouco.<\/p>\n<p>Os mercados acion\u00e1rios, americano e brasileiro, parecem incorporar premissas relativamente favor\u00e1veis para o futuro, seja na avalia\u00e7\u00e3o dos riscos, seja nas premissas para os cen\u00e1rios econ\u00f4micos. \u00c9 verdade que a \u201cnova\u201d economia faz com que par\u00e2metros velhos sejam pouco \u00fateis na avalia\u00e7\u00e3o de ativos, tornando fact\u00edveis coisas que hoje podem parecer absurdas \u2013 por exemplo, a receita da Netflix aumentou 40% com margem \u201cebitda\u201d de 12,5%. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que \u00e9 relativamente simples produzir crescimento aqui no curto prazo, bastando para isso fazer o b\u00ea-\u00e1-b\u00e1. \u00c9 preciso considerar igualmente que no curto prazo todas essas contas s\u00e3o menos relevantes do que fatores psicol\u00f3gicos, como lembrou o Schiller h\u00e1 um ano no NYT. Tudo isso \u00e9 muito bonito, mas nada muda o fato de que os riscos \u00e0 frente parecem ser tamb\u00e9m consider\u00e1veis, l\u00e1 e c\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> EXAME<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comprar a bolsa agora requer n\u00e3o apenas acreditar no sucesso de Bolsonaro, mas em algo que ainda n\u00e3o tenha sido incorporado aos pre\u00e7os Os primeiros alertas de que havia uma bolha no mercado imobili\u00e1rio americano come\u00e7aram a aparecer em 2004. 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