{"id":6367,"date":"2018-12-03T09:02:00","date_gmt":"2018-12-03T11:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/bbconsultoria.net\/site\/?p=6367"},"modified":"2018-12-05T11:17:32","modified_gmt":"2018-12-05T13:17:32","slug":"a-refundacao-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bbconsultoria.net\/site\/a-refundacao-do-brasil\/","title":{"rendered":"A &#8216;refunda\u00e7\u00e3o&#8217; do Brasil"},"content":{"rendered":"<h3>Os bolsonaristas mais animados querem incluir o Brasil em uma esp\u00e9cie de \u201cInternacional\u201d da direita capitaneada por Donald Trump. Tal iniciativa em nada difere da antiga concerta\u00e7\u00e3o bolivariana<\/h3>\n<p>Jair Bolsonaro cometer\u00e1 um s\u00e9rio equ\u00edvoco se julgar que sua miss\u00e3o, como presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 refundar o Pa\u00eds. O mesmo erro cometeu o sr. Lula da Silva, ao considerar-se o grande pioneiro do Brasil, menosprezando todos os que vieram antes dele, desde Cabral. O resultado, no caso de Lula, foi um pa\u00eds cindido, em que a discuss\u00e3o democr\u00e1tica sobre os principais problemas do Pa\u00eds foi interditada, j\u00e1 que o grupo no poder se arvorou no \u00fanico e leg\u00edtimo propriet\u00e1rio da verdade.<\/p>\n<p>O fato de que Bolsonaro foi eleito com base em algumas ideias que calaram fundo no sentimento do eleitorado n\u00e3o significa que o Brasil deixou de ser o Brasil nem que os brasileiros deixaram de ser os brasileiros. O sentimento religioso &#8211; abrangente e tolerante &#8211; e patri\u00f3tico da Na\u00e7\u00e3o, que atravessa gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se transformou em algo radicalmente diferente por obra e gra\u00e7a do voto na urna.<\/p>\n<p>Uma parte consider\u00e1vel dos eleitores que escolheram Bolsonaro em outubro tamb\u00e9m ajudou a eleger tanto Lula da Silva como Dilma Rousseff em outros tempos. \u00c9 bom lembrar que, a certa altura de sua trajet\u00f3ria como presidente, Lula da Silva chegou a ter quase 90% de popularidade, mesmo em meio a crescentes e cabeludos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. Logo, a expectativa depositada em Bolsonaro pouco ou nada difere da expectativa que cercou os outros governantes. E tal expectativa sempre girou em torno da esperan\u00e7a de prosperidade, bem-estar e tranquilidade prometida pelo candidato majorit\u00e1rio. E a popularidade dele ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o direta com sua capacidade de criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a satisfa\u00e7\u00e3o dos anseios do conjunto dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, malgrado o fato de que evidentemente precisa se empenhar para cumprir suas promessas de campanha, Bolsonaro deve ter em mente que precisa igualmente respeitar as aspira\u00e7\u00f5es gerais que transformam todos os eleitores &#8211; tanto os de Bolsonaro como os que escolheram outros nomes &#8211; em uma na\u00e7\u00e3o. Tais sentimentos o precedem.<\/p>\n<p>Bolsonaro n\u00e3o recebeu mandato para fazer t\u00e1bula rasa de tudo o que veio antes dele. Muitos de seus eleitores e alguns de seus assessores acreditam que essa seja precisamente sua tarefa, mas um governante s\u00f3 se torna um estadista de fato quando reconhece os avan\u00e7os promovidos pelos antecessores e se disp\u00f5e a administrar o Pa\u00eds conciliando ideias, em vez de desqualificar, de sa\u00edda, tudo o que representa o passado. Governos com pendores revolucion\u00e1rios costumam frustrar expectativas &#8211; e o malogro do lulopetismo, aquele que prometeu realiza\u00e7\u00f5es como \u201cnunca antes na hist\u00f3ria deste pa\u00eds\u201d, deveria servir de advert\u00eancia aos que hoje se apresentam como campe\u00f5es do \u201cnovo\u201d.<\/p>\n<p>Se mais exemplos concretos s\u00e3o necess\u00e1rios, basta lembrar a passagem de Carlos Menem pela Presid\u00eancia da Argentina (1989-1999). Em seu primeiro mandato, Menem, assim como promete fazer agora Bolsonaro, rompeu a pol\u00edtica de seus antecessores &#8211; e, na verdade, certas tradi\u00e7\u00f5es &#8211; e alinhou a Argentina automaticamente aos Estados Unidos, estabelecendo o que o ent\u00e3o chanceler argentino, Guido di Tella, qualificou como \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d com os norte-americanos. Essa atitude simbolizou a disposi\u00e7\u00e3o de proceder a uma revis\u00e3o radical de todas as pol\u00edticas do passado, em especial as do antecessor, Ra\u00fal Alfons\u00edn, mas na pr\u00e1tica os problemas estruturais argentinos n\u00e3o foram enfrentados. A festa acabou em 1995, quando uma alta de juros nos Estados Unidos deflagrou uma brutal crise que estagnou a economia argentina e elevou o desemprego e a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no caso de Bolsonaro, a aproxima\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e incondicional com os Estados Unidos serve, em primeiro lugar, para simbolizar a prometida ruptura com certas fases do passado, sobretudo com o lulopetismo &#8211; marcado pelo terceiro-mundismo na pol\u00edtica externa. Os bolsonaristas mais animados querem incluir o Brasil em uma esp\u00e9cie de \u201cInternacional\u201d da direita capitaneada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Tal iniciativa em nada difere da antiga concerta\u00e7\u00e3o bolivariana que presumia haver solidariedade autom\u00e1tica entre pa\u00edses latino-americanos apenas pelo fato de que estavam sendo governados por esquerdistas.<\/p>\n<p>Ou seja, se n\u00e3o tiver fundamentos s\u00f3lidos, a anunciada revolu\u00e7\u00e3o bolsonariana, a julgar pelo que se viu at\u00e9 aqui, pode acabar reproduzindo os erros do menemismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os bolsonaristas mais animados querem incluir o Brasil em uma esp\u00e9cie de \u201cInternacional\u201d da direita capitaneada por Donald Trump. Tal iniciativa em nada difere da antiga concerta\u00e7\u00e3o bolivariana Jair Bolsonaro cometer\u00e1 um s\u00e9rio equ\u00edvoco se julgar que sua miss\u00e3o, como presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 refundar o Pa\u00eds. O mesmo erro cometeu o sr. 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